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Numa aldeia como a de Caçarelhos muitos são os sons que caracterizam e definem a sua paisagem sonora actual. Como muitos e diferenciados foram os sons que a caracterizaram em tempos que já lá vão. A progressiva deserção das gentes da terra (pelos caminhos da emigração europeia e das migrações para os grandes núcleos do litoral português) tem vindo a determinar silêncios que incomodam sobretudo a memória dos que ficaram (poucos por opção e muitos por obrigação). A vida e as vivências rurais têm vindo a desvanecer-se, os campos são cada vez menos trabalhados e entregues à florestação, desapareceram as segadas e escasseia o pastoreio.
Se os sons do trabalho se foram ouvindo cada vez menos também os sons da festa, outrora tão frequentes como no-lo referiu Adélia Garcia, se fazem ouvir cada vez menos e com data marcada, com crescente diminuição da adesão das gentes da terra (que apesar de tudo, ainda vão cumprindo com a sazonal "Peregrinação" por alturas da festa local não raro deslocada para o período de férias, ou das celebrações natalícias).
É muiito vasto - quase ilimitado, diríamos mesmo - o repertório de canções da segada e romances, de cantigas de cegos e jogos de roda, de cantos religiosos e cantos de acompanhar todos os dias que se conservam na memória de Adélia Garcia. Por vezes já lhe custa recordar tanto verso aprendido e tanta melodia decorada mas logo mais se abre no seu rosto o sorriso de quem conseguiu, uma vez mais e apesar dos anos, recordar mais este canto ou aquela melodia.
Quando se trata de registar o património religioso, desde logo nos deparamos com algumas dificuldades conceptuais que, nos últimos anos, tém merecido atenção reflexiva dos etnomusicólogos dedicados à música tradicional e popular.

Sob a designação corrente de música religiosa costumam englobar-se "todos aqueles cantos cujo texto contem temas relacionados com o facto religioso em toda a sua amplitude: fé e crenças, história sagrada, culto e devoções a Deus e aos Santos, cerimónias e ritos de culto, moral e costumes, bem como instrução catequética" (Miguel Manzano), pelo que cada um destes aspectos poderia constituir uma espécie diferente de canto religioso. No entanto, perante a inexistência de textos/palavras, certos espécimes instrumentais são susceptíveis de integrar o corpus expressivo genericamente designado por música religiosa por força dos contextos em que se produzem, assegurando funções culturais e rituais (de registar a existência de espécimes instrumentais que se interpretam quer em contextos religiosos quer em contextos não religiosos, assumindo, portanto distintas funcionalidades).
De um modo geral e sob o ponto de vista da respectiva funcionalidade, os repertórios musicais populares religiosos podem ser enquadrados em três tipos fundamentais: litúrgicos, paralitúrgicos e devoicionais (colectivos ou singulares). Se no grupo dos espécimes litúrgicos se incluem os cantos e as músicas interpretadas no decurso das cerimónias e orações determinadas para os cultos oficiiais rituais (missas e demais actos culturais a elas associados), no grupo dos espécimes paralitúrgicos são incluidos os cantos e as músicas associadas às celebrações da Quaresma e da Semana Santa, do Natal e dos Reis, bem como das festas em honra e louvor dos Santos e da Virgem Maria. E no que se refere aos espécimes de natureza devocional, de inciativa individual ou de participação colectiva, regista-se uma expressão funcional associada a situações e momentos de e de ritual específico (novenas, preces, suplicas e marchas processionais).
No contexto expressivo das celebrações de cariz religioso que se integram nas distintas ocasiões festivas que se realizam no Nordeste Transmontano, os cantos e as músicas que integram o respectivo corpus musical religiosos de base popular distribuem-se pelos seguintes tempos culturais: do ciclo do Natal aos Reis, O chamado ciclo dos doze dias (pontificam os cantos natalícios e os cantos de saudação e de peditório); da Paixão do Senhor (encomendações das almas, cantos às almas, misericórdias e toques rituais específicos de Semana Santa ou Quaresma ainda se podem escutar num tempo de profundo recolhimento espiritual); da Liturgia (toques de chamamento dos fieis para as celebrações eucarísticas, cantos eucarísticos e demais espécimes associados a actos devocionais e culturais realizados no interior dos templos sagrados); de actos devocionais e culturais realizados no interior dos templos sagrados); de actos devocionais específicos (loas e cantos devocionais em honra e louvor da Virgem Maria e dos Santos); e das festas populares de cariz religioso (cantos e modasde procissão, marchas processionais e rondas).
Porque se trata de património musical de mais que reconhecido valor cultural, pretende-se com este registo documental fornecer amostra testemunhal da respectiva expressividade, com o desejo de que o mesmo de algum modo contribua para melhor e mais aprofundado conhecimento do mesmo, suscitando a necessária reflexão e estudo que legitimamente exige e requer.
Adélia Garcia é uma poderosa e expressiva guardiã de todo um património de cânticos religiosos de reconhecida antinguidade, que deixaram de se ouvir, quase na totalidade, nas celebrações litúrgicas e demais actos rituais religiosos. (...)

Textos retirados do CD "Cantos Religiosos Antigos" gravado por SonsdaTerra