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Nascida a 15 de Junho de 1933, numa aldeia do nordeste transmontano, no berço de uma família humilde e tradicional do povo, Adélia sempre foi uma pessoa que gostava de cantar. Tudo o que é tradição e costume fazia parte desta mulher. Cancioneiro vivo, dentro da sua cabeça moravam imensas cantigas, tal tesouro que muitos desejam conhecer e descobrir.  
Dona de uma voz bela, deu a conhecer ao mundo suas cantigas, por muitos procurada, por vezes apenas por curiosidade; mas o facto é que a simplicidade da Adélia não deixava qualquer um indiferente e fazia com que gentes a quisessem conhecer melhor.
Adélia retratava a mulher tradicional do povo, uma mulher simples que sofreu muito, passou por muitas dificuldades sem ter deixado de ter dentro dela uma alegria imensa que se dava a conhecer através das suas cantigas, das suas modas, das suas vivências. 
Adélia Augusta Pires Garcia, viveu sempre em Caçarelhos com quem partilhou as suas crenças e costumes. Fez parte do coro da paróquia e do rancho, rezava o terço e a Via Sacra na Aldeia, deu catequese, muitas vezes em devoção às suas crenças pelo bem da comunidade.
Logo de nova aprendeu a ser uma Mulherzinha, pois a vida assim o quis. 
Caçarelhos, sendo uma povoação perto da fronteira, favorecia que as pessoas vivessem muito do contrabando. Adélia era uma dessas pessoas, ia comprar à Espanha, às vezes até trocando por outras coisas e vendia às pessoas em Portugal.
Tanta vezes ficou sem nada, pois indo a salto por vezes era apanhada pelos Guardas na fronteira. 
Chegou mesmo a ser presa, em momentos em que Portugal era o que era, não havia liberdade de expressão, tudo era controlado... o Salazarismo, a Pide. Eram tempos de miséria em que o pouco era suficiente e se vivia dessa forma. Mesmo assim havia felicidade na Adélia, sempre com uma música no ar, uma moda para aprender. 
Adélia era tradição e a tradição reflete a cultura de um povo. Uma cultura cada vez mais extinta. Talvez essa a razão por que era tão apreciada por pessoas de fora, aquela que tão bem guardada estava na Adélia.

Por volta de 1960, Michel Giacometti gravou-a para a posterioridade para o seu programa “O Povo que ainda Canta”. Adélia, uma mulher genuína, simples, que contava o que viveu, o que lhe ia na alma e isso fez da Adélia uma pessoa única, sem rodeios. Além disso, vivia na Adélia uma pessoa humilde, acolhedora, que dava o pouco que tinha. 
Giacometti não foi o único, muitos se seguiram, porque a Adélia tinha tanto para contar, muito para ensinar. Tudo o que imana  de um povo, a Adélia sabia e o que ela nos descobria era algo tão raro nos dias de hoje, um tesouro perdido no tempo. 

Adélia Garcia com Né Ladeiras Cantada por Né Ladeiras, gravada por Judith Cohen, Alberto Jambrina Leal, Pablo Madrid e José Manuel González Matellán, Daniel Loddo, Enrique Cámara de Landa e José Alberto Sardinha, B-Fachada, Colaborou com os Galandum Galundaina, entre muitos mais.
Incluíram músicas que a Adélia lhes ensinou nos seus álbuns. Músicas tão belas, que lhe dão sucesso.
Uma pessoa humilde, do campo, que lhes dava guarida, e que embora com pouco tinha sempre algo para oferecer desta doce menina encantadora, oferecido de coração com a melhor das intenções. 
Adélia tinha uma vida bela que apetecia viver, longe do trânsito, longe da cidade. Onde se respirava plenitude e qualidade de vida, estava-se bem com a Adélia, a aprender com ela suas vivências, que embora sejam vivências do povo nos ensinavam tanto e tão valiosa dádiva cultura. Não era dona de riqueza material mas vivia com ela o maior tesouro à face da terra. Qualidade de vida, simplicidade, não era por viver do pouco mas o silêncio que por imensas vezes lhe fazia companhia e de repente desaparecia porque Adélia soltava uma das suas cantigas, uma das suas quadras que ela apreciava com tanto apreço. 

Em 1999 por iniciativa de Domingos Raposo e com apoio de Mário Correia, foi com ela gravado e editado um CD intitulado CANTIGAS DA SEGADA. Adélia Garcia, José Garcia e Maria Augusta Falcão davam voz às cantigas que se cantavam nas cegadas do antigamente.
Em 2002, integrou o um dos filmes sobre as tradições musicais de Trás-os-Montes, da série POVO QUE CANTA, da responsabilidade da Duvideo/RTP. Em 2004, a Sons da Terra publicou novo CD, com o título ADÉLIA GARCIA e em 2010, novo CD na Sons da Terra, intitulado CANTOS RELIGIOSOS ANTIGOS.
Conheceu Tiago Pereira também com quem guardou sempre uma grande amizade, que fez com que através da sua forma de viver a vida, fosse descoberta tal diva, um talento inigualável. 
Tiago tornou-a protagonista dos seus vídeos, dos seus programas na Rádio: por coincidência voltou ao "o Povo que ainda Canta", na rádio e na TV; "a Música Portuguesa a gostar dela Própria" até mesmo nas suas entrevistas, o Tiago fez questão de mostrar a Adélia, presente nas histórias que contava. 
Mas a Adélia era mais que tudo. A sua genuinidade e simplicidade fizeram com que não se tornasse indiferente à sua pessoa. Não se tratava de um simples trabalho, mas sim acabava por fazer parte da vida da Adélia, parte da vida do Tiago. A Velhinha das Velhinhas de Tiago, a quem ele gostava de visitar ano a ano.

Gravada em 2010 pelo projecto MemoriaMedia, onde participou em vários vídeos em conjunto com Maria Augusta Falcão, Maria Martins Lopes e Francisco Augusto Bartolomeu

Tantos papéis, guardados em gavetas, letras e letras raras que a Adélia colecionava. Quase que são manuscritos secretos, pois ninguém os sabia... Mas Adélia sabia e conservava-os com tanto carinho. Colecionadora, se assim a podemos chamar, é um talento perdido - mas não o foi por acaso, foi porque caso contrário não era a Adélia que nós conhecemos.
E esta era Adélia, não é nenhuma esmeralda, não mas era a mais bela valiosa fortuna. Aquela que dava valor a tudo que somos, aquela que nos fez herdar uma herança pura onde não existe discórdia, apenas amor cheio de encantos belos. 
A Adélia era de Caçarelhos e merece qualquer homenagem, porque sempre teve honra de pertencer a esta localidade, dignificando-a a cada representação. E viveu a 100 % em cada um dos dias que viveu na sua vida. Não foi mais ninguém, foi simplesmente a simples e única Adélia, que a tornou tão valiosa e genuína. A Adélia que todos gostamos de ouvir nas suas fabulas, nas suas histórias. Adélia e Manuel Carmona o seu marido
No final do ano de 2016, mesmo no último dia, a Adélia partiu para sempre mas estará viva sempre nos nossos corações, com aquela alegria que só ela nos transmitia.

Adélia Garcia 1933-2016